Maria das Graças Targino

Doutora em Ciência da Informação, Universidade de Brasília, e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca, Espanha. Sua experiência acadêmica inclui, ainda, cursos em países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Tem produzido artigos, capítulos e livros em ciência da informação e comunicação, enveredando pela literatura como cronista. Depois de vinculação com a Universidade Federal do Piauí por 25 anos e com a Universidade Federal da Paraíba por 14 anos, hoje, dedica-se à literatura, especificamente, ao jornalismo literário e a crônicas.
Doutora em Ciência da Informação, Universidade de Brasília, e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca, Espanha. Sua experiência acadêmica inclui, ainda, cursos em países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Tem produzido artigos, capítulos e livros em ciência da informação e comunicação, enveredando pela literatura como cronista. Depois de vinculação com a Universidade Federal do Piauí por 25 anos e com a Universidade Federal da Paraíba por 14 anos, hoje, dedica-se à literatura, especificamente, ao jornalismo literário e a crônicas.

As fake news e o risco dos escorregões

"Antes de levar adiante dados que lhes cheguem às mãos, verifiquem, com rigor, a procedência das informações"

Na sociedade contemporânea, as fake news alcançam tal relevo, velocidade e alcance, motivando inquietações, sobretudo, no que concerne à ética do fluxo informacional, o que justifica a fala do ex-primeiro-ministro britânico James Callaghan, segundo a qual “uma mentira pode dar a volta ao mundo antes que a verdade tenha a chance de calçar as botas” (KEEN, 2009, p. 22).

Em tempos de tantos distúrbios e do verdadeiro caos que se instalou no país nas mais diferentes esferas, incluindo, saúde, educação, política, economia, segurança, e, sobretudo, ética, recebi em meu WhatsApp um vídeo atribuído ao então Governador do Espírito Santo, Belivaldo Chagas. Referia-se às medidas de restrição frente à pandemia do coronavírus, mas de forma a posicionar sempre a população contra a polícia nas fases de lockdown, mediante termos chulos e agressivos.

Foto: Reprodução/Reinaldo Azevedoilustração

A princípio, acreditei no teor veiculado, haja vista que as discussões políticas estão mais e mais ornamentadas com palavrões e ofensas. Como sempre faço, cuidei de checar as informações. Encontrei diferentes e numerosos vídeos e postagens do Governador aqui citado nominalmente, para se alguém der de cara com um vídeo com tais características e o envolvendo, tenha a precaução de que pode ser fake news, expressão tão em voga para nomear xingamentos e mentiras tanto contra pessoas físicas quanto pessoas jurídicas.

Discutidas como novidades danosas à sociedade atual, na verdade, sempre existiram, ou seja, elas não constituem fenômeno recente. Verdade e mentira, real e irreal, imaginário e racional, notícias e boatos parecem inerentes ao ser humano e à coletividade. Desde a Antiguidade, Sócrates se dedicava à dialética com o intuito de estimular as pessoas a questionamentos contínuos para chegarem a um conhecimento seguro em flagrante combate a informações falsas que permeavam o cotidiano de então. Adiante, os séculos XX e XXI estão repletos de casos, em especial, no universo político e eleitoral, além do marketing de guerra e do marketing político. Ouso afirmar que a consagração da expressão se deu, em 2017, quando de sua inserção no conceituado Cambridge Dictionary, que a define como histórias falsas que aparecem para ser notícias, que se espalham pela internet ou via outras mídias, criadas para influenciar pontos de vista políticos ou como anedotário.

No caso do vídeo, no qual quase escorreguei, o cenário de sua filmagem era semelhante a outros de B. Chagas, com a bandeira do Estado como fundo e na mesma posição, além de detalhes adicionais. Ao final do processo de checagem, confrontando com outros vídeos, a entonação da voz, aliada a outros motivos, suscitou a certeza de farsa. Por exemplo: recuperei o vídeo numa única página eletrônica em meio a dezenas que pesquisei; não consegui nenhum elemento sobre o grupo responsável pela produção; e constatei a inexistência de links relacionados.

Aproveito, então, para recomendar ao público que, antes de levar adiante dados que lhes cheguem às mãos, verifiquem, com rigor, a procedência das informações: existência de instituição e/ou pessoa física responsável pelos conteúdos, além de credenciais e formas de contato, postadas, em geral, no item – quem somos –, além da facilidade de contato com os editores e da disponibilização dos respectivos currículos.

Além desse primeiro item, é possível traçar uma síntese de outros mais: (2) nível de atualização da página e dos links; (3) qualidade intrínseca da informação mediante avaliação de fatores, como obediência às normas cultas; foco do conteúdo; e consistência estrutural na apresentação da postagem; (4) acessibilidade, no sentido de o internauta ter facilidade de localizar suas demandas informacionais, o que pressupõe, quase sempre, a existência de links complementares; (5) suporte aos usuários durante consulta à fonte, quer dizer, sistema de busca amigável, graças a índices, opções de refinamento e outros recursos.

Indo além, também vale reforçar os seguintes cuidados: (6) segurança contra acessos por parte de indivíduos não autorizados; (7) usabilidade, isto é, atenção à facilidade de uso, de navegação e, também, à qualidade do design; (8) consistência, coerência e relevância das postagens; menção às fontes pesquisadas; à cobertura temporal e à temática segundo o proposto pelo site; (9) estabilidade: a informação pode ser recuperada a qualquer momento.

Por fim, há uma série ampla de livros, monografias, dissertações, teses e artigos sobre a complexidade que envolve os critérios de qualidade para a avaliação de fontes de informação no espaço cibernético diante da avalanche do fluxo informacional permanente acelerado pelos artefatos tecnológicos que evoluem a cada dia por toda parte do mundo e a passos de gigante. Destaque, então, para a publicação de M. I. Tomaél e A. R. Alcará, intitulada “Fontes de informação digital” e editada pela Universidade Estadual de Londrina!

*Maria das Graças Targino é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica, [email protected]

Todo conteúdo, imagem e/ou opinião constantes neste espaço são de responsabilidade exclusiva do colunista. O material aqui divulgado não mantém qualquer relação com a opinião editorial do JTNEWS.

Comentários