Silvio Barbosa

Professor concursado do Curso de Comunicação Social da UFPI, campus Teresina. Doutor em Comunicação e Mestre em Filosofia do Direito é advogado e jornalista, com 24 anos de experiência de mercado, tendo trabalhado em empresas como Rede CBS (Estados Unidos), Globo, Bandeirantes, Record e TV Cultura. Autor dos livros TV e Cidadania (2010) e Imprensa e Censura (no prelo) e dos documentários Vale do rio de lama - no rastro da destruição, e Sergio Vieira de Mello, um brasileiro em busca da paz no mundo.
Professor concursado do Curso de Comunicação Social da UFPI, campus Teresina. Doutor em Comunicação e Mestre em Filosofia do Direito é advogado e jornalista, com 24 anos de experiência de mercado, tendo trabalhado em empresas como Rede CBS (Estados Unidos), Globo, Bandeirantes, Record e TV Cultura. Autor dos livros TV e Cidadania (2010) e Imprensa e Censura (no prelo) e dos documentários Vale do rio de lama - no rastro da destruição, e Sergio Vieira de Mello, um brasileiro em busca da paz no mundo.

O capitalismo de Bolsonaro pede socorro à China Comunista

O dinheiro, como sempre, fala mais alto do que a ideologia

Esqueçam tudo o que  Jair Bolsonaro falou sobre a China quando ainda era candidato à presidência. Para garantir o apoio dos conservadores, dos inocentes e dos fanáticos ideológicos que ainda acreditam no "perigo vermelho", Bolsonaro, em campanha, cansou de elogiar o Império do Tio Sam, com quem queria se aliar, fazendo críticas à China comunista.

O candidato chegou a dizer, furioso, que os chineses estavam comprando o Brasil. Eleito, e vendo o buraco em que está nossa economia, e sem um centavo de Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro, aconselhado pelos ministros, mudou o tom... Qualquer dinheiro aqui é bem vindo, disseram a Bolsonaro.

Foto: O GloboFederação das Indústrias de São Paulo celebra a Revolução Comunista com a bandeira chinesa na fachada
Federação das Indústrias de São Paulo celebra a Revolução Comunista com a bandeira chinesa na fachada

Após a posse, o presidente mandou o centrado vice, General Mourão, para a China. Lá, ele distribuiu sorrisos e gentilezas, como Mourão bem sabe fazer, e tranquilizou o governo da economia mais pujante do planeta. Bolsonaro acenou para os chineses lá longe, mas correu atrás dos Estados Unidos, de Donald Trump, o bom parceiro ideológico que não poderia nos deixar na mão nessa crise econômica que se arrasta há 6 anos.

Só que o Tio Sam deixou... Bolsonaro ficou a ver navios porque Trump não liberou ajuda alguma, não assinou nenhuma parceria que trouxesse investimentos concretos no Brasil, nem aceitou o pedido para apoiar a entrada brasileira na OCDE, clube dos bacanas que reúne apenas 34 países com direito a voto.

A ideologia comum de Jair e Trump não ajudou em nada, a não ser em fotos para o albúm da família Bolsonaro. Sem apoio político ou financeiro dos Estados Unidos, Bolsonaro teve que engolir a rejeição mortal que sente ao comunismo. E, na visita à China, passou o chapéu, pedindo ao poderoso Secretário Geral do Partido Comunista chinês, Xi Jinping, um dinheirinho para ajudar a impedir o fracasso do leilão das áreas de exploração do pré-sal. A China demonstrou que não guardou mágoa das palavras duras do candidato Bolsonaro, liberou investimento e salvou o leilão, que não teve participação de nenhuma petroleira capitalista norte-americana ou européia. Viva a China Comunista, gritam escondidos os bolsonaristas!

Que reviravolta, heim, para os ideólogos de direita e de extrema-direita que faziam a cabeça do presidente. E agora, como justificar que é o maior país comunista do mundo que veio dar um empurrão no capitalismo quase falido do Brasil? 

Na China, o presidente Bolsonaro deu lá sua explicação. Após o encontro com o Secretário Geral do Partido Comunista chinês, falou para a imprensa que a China não é comunista, querendo dizer que apesar do nome oficial, o país é mesmo capitalista. Hummm, que difícil tentar pautar o discurso político de hoje com definições ainda do século 19.

Mas voltando ao presente, para entender a  importância chinesa, basta vermos o que cada um de nossos dois países representa no mercado mundial: enquanto em 1980, o Brasil era o 11º maior exportador do mundo, a China vinha lá trás, na posição 29. Hoje, segundo a Organização Mundial do Comércio, a China é a maior exportadora do mundo, principalmente de produtos industrializados, e o Brasil despencou para a posição 28, principalmente de produtos in natura, com menor valor agregado.

Vendendo tanto industrializado, e comprando principalmente produtos de menor valor, como soja e minério de ferro, a China acumulou o maior pé-de-meia do mundo. Tem dinheiro sobrando para construir portos e estradas de ferro na África e nas Américas. Já o Brasil, por outro lado, mal consegue fechar as contas. Aí está, portanto, o motivo de Jair Bolsonaro deixar de lado o discurso anticomunista tão caro ao ideólogo de seu governo, o auto-declarado filósofo Olavo de Carvalho,  astrólogo radicado nos Estados Unidos.

Olavo odeia os comunistas, mas Bolsonaro precisa de dinheiro. Na reuniao, em Brasília, com os dirigentes dos BRICS, grupo que reúne Brasil, Rússia, India, China e África do Sul, Bolsonaro pediu desculpas a Xi Jinping e, ao que tudo indica, conseguiu abrir o cofrinho chinês, que tem 100 bilhões de dólares para investir. E uma parte dessa fortuna já está vindo para o Piauí, na forma de investimentos em energia renovável, ou seja, a construção de usinas eólicas e solares.

Se no ano passado Bolsonaro reclamava que os chineses estavam comprando o Brasil, agora ele mesmo pede que venham comprar. Sinal dos tempos e da crise. Ni hao, China. Bem vinda, China.

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