A segurança alimentar de bebês voltou a ser pauta nacional após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinar, em 7 de janeiro de 2026, a proibição da venda, distribuição e uso de diversos lotes de fórmulas infantis da Nestlé. A medida ocorreu após a identificação do risco de contaminação pela toxina cereulide, produzida pela bactéria Bacillus cereus.
A cereulide é conhecida por sua resistência ao calor, não sendo eliminada pelo preparo convencional da fórmula, ou seja, mesmo aquecer a água ou seguir corretamente o modo de preparo não garante segurança. Essa toxina pode provocar vômitos persistentes, diarreia e letargia em bebês e crianças pequenas, quadro que exige atenção imediata.
A contaminação: o que aconteceu?
A Nestlé informou às autoridades, em análises internas de rotina, a possível presença da toxina em um ingrediente fornecido por um fornecedor global de óleos terceirizados, utilizado em uma fábrica localizada na Holanda. O problema não atingiu todos os produtos, mas sim lotes específicos, o que levou a um recall global, incluindo Brasil, Europa e outros mercados internacionais.
A Anvisa, após o comunicado da empresa, publicou a Resolução nº 32/2026, suspendendo preventivamente lotes das marcas:
- Nestogeno
- Nan Supreme Pro
- Nanlac Supreme Pro
- Nanlac Comfor
- Nan Sensitive
- Alfamino
Os sintomas associados ao consumo da toxina incluem vômitos intensos e de início rápido, diarreia e sonolência excessiva, um quadro que, especialmente em bebês, pode levar rapidamente à desidratação e outras complicações.
Nota oficial da Nestlé: o que diz a empresa
Em comunicado divulgado em 7 de janeiro de 2026, a Nestlé afirmou estar realizando recall voluntário e preventivo, reforçando que nenhum caso confirmado de reações adversas havia sido registrado até então em qualquer país. A companhia declarou cooperar integralmente com autoridades regulatórias e manter “padrões rigorosos de controle de qualidade”, destacando que a ação foi tomada “por excesso de cautela”.
A empresa também informou:
- Atendimento 24h para orientações
- Devolução gratuita das fórmulas afetadas
- Reembolso integral aos consumidores
- Transparência sobre todos os lotes envolvidos no recall
A Nestlé se pronunciou também à imprensa internacional, reafirmando que “a segurança e o bem-estar dos bebês são prioridade absoluta” e pedindo desculpas oficialmente aos pais e responsáveis.
Como identificar se a fórmula usada está entre os lotes contaminados
Pais e responsáveis devem verificar o número do lote impresso no fundo ou próximo à data de validade da lata. Apenas os lotes listados pela Anvisa e pela Nestlé estão afetados; todos os demais permanecem aptos ao consumo.
A orientação oficial é clara: caso o produto pertença a algum lote interditado, o uso deve ser interrompido imediatamente. Em caso de sintomas após o consumo, procure atendimento médico levando a embalagem do produto sempre que possível.
O que este caso revela sobre a segurança das fórmulas infantis
O episódio reacende uma discussão delicada: a dependência crescente das famílias das fórmulas infantis e a falsa sensação de segurança que produtos industrializados podem transmitir.
Embora essenciais em situações específicas (como contraindicação à amamentação, adoção tardia ou casos de saúde materna), as fórmulas não são isentas de riscos. Processos industriais complexos, cadeias globais de suprimentos e manipulação de ingredientes diversos aumentam as chances de falhas.
A toxina cereulide, por exemplo:
- é resistente ao calor
- pode estar presente em leite e derivados
- não altera cheiro ou sabor
- é potencialmente perigosa mesmo em pequenas/microdoses
O caso reforça a urgência de fortalecer políticas públicas que promovam e protejam o aleitamento materno (aliás, tema recorrente aqui na coluna) reduzindo a exposição desnecessária de bebês a riscos evitáveis.
Conectando com a minha última matéria para o JTNews: quando o custo do aleitamento artificial vai além do financeiro (Aleitamento artificial: Qual o custo, os riscos e por que insistir no aleitamento materno?; por Grazi Mantovaneli | JTNEWS)
Esse episódio dialoga diretamente com a reflexão apresentada na minha última coluna no JTNEWS, onde destaquei que o aleitamento artificial traz custos que vão muito além do preço da lata. Abordei ali não apenas o gasto contínuo com as fórmulas, mas também os impactos silenciosos e cumulativos: maior incidência de doenças, aumento de consultas e internações e a dependência de uma cadeia produtiva complexa (e como vemos agora) vulnerável a falhas.
O recall global provocado pela possível contaminação com uma toxina resistente ao calor materializa exatamente esses riscos estruturais. Mesmo que pais sigam perfeitamente todas as orientações de preparo, não têm como neutralizar uma inconformidade que se origina na indústria, antes mesmo que o produto chegue às prateleiras. Esse é o tipo de custo invisível que nunca aparece no rótulo, mas pesa enormemente sobre as famílias.
Além disso, ao normalizarmos o uso de fórmulas como uma alternativa sempre segura, ignoramos que cada lata depende de processos internacionais, fornecedores múltiplos e controles que, embora rigorosos, não podem eliminar completamente todos os riscos. Quando qualquer elo dessa cadeia se rompe, o impacto recai sobre quem menos pode suportá-lo: o bebê, exatamente o ponto central que desenvolvi na coluna anterior.
Por isso, o recall não é apenas um alerta sanitário momentâneo: ele reforça a importância de compreendermos que o aleitamento artificial sempre carregará riscos inerentes, enquanto o aleitamento materno permanece como uma opção naturalmente segura, fisiologicamente adequada e livre dessas vulnerabilidades.
“Este recall global escancara algo que venho alertando há muito tempo: quando uma família depende do aleitamento artificial, ela depende, na verdade, de uma cadeia industrial complexa, internacional e vulnerável. O custo real da fórmula não está só na prateleira, está nos riscos que não aparecem no rótulo. E é por isso que defender, apoiar e viabilizar o aleitamento materno não é romantismo: é política pública, é saúde coletiva e é proteção concreta à vida dos nossos bebês.”
(Graziela Mantovaneli, Enfermeira Pediátrica e Neonatologista)
Conclusão: Por que precisamos estimular, de verdade, o aleitamento materno?
A rápida resposta da Anvisa e o recall voluntário da Nestlé mostram que os sistemas de vigilância funcionam, mas também revelam a fragilidade inerente às cadeias produtivas globais. Famílias devem manter atenção redobrada e acessar apenas fontes seguras e oficiais para checar lotes e orientações.
Apesar de décadas de campanhas, políticas e evidências científicas, o incentivo ao aleitamento materno ainda é insuficiente, fragmentado e frequentemente tratado como responsabilidade individual das mães, quando deveria ser uma responsabilidade compartilhada pela sociedade e pelo Estado.
Enquanto fórmulas infantis têm espaço garantido em prateleiras, publicidade e discursos comerciais sedutores, o aleitamento materno enfrenta:
- falta de apoio profissional adequado
- pouca orientação qualificada na atenção básica
- licença-maternidade insuficiente
- ambiente de trabalho pouco acolhedor
- maternidade vivida de forma solitária por muitas mulheres
O resultado é claro: a maioria das mulheres deseja amamentar, mas não encontra suporte.
O aleitamento materno protege contra infecções, alergias, internações e reduz mortalidade infantil. É um alimento vivo, seguro e produzido sob medida. E, diante de episódios como o das fórmulas contaminadas, fica ainda mais evidente que nenhuma tecnologia alimentícia, por mais avançada que seja, é capaz de reproduzir a segurança do leite humano.
Estimular o aleitamento materno não é romantizar a maternidade: É proteger mães e bebês, fortalecer a saúde pública e reduzir riscos desnecessários como os que este recall global evidencia.
Por Graziela de Melo Mantovaneli, enfermeira pediátrica e neonatologista e tutora em Aleitamento Materno e Alimentação Complementar pelo Ministério da Saúde.
Fonte: JTNEWS