Aleitamento artificial: Qual o custo, os riscos e por que insistir no aleitamento materno?; por Grazi Mantovaneli

No Brasil, apenas 38,6% dos bebês são amamentados exclusivamente até os 6 meses, segundo a pesquisa ENANI/UNICEF. No mundo, essa média é um pouco maior, cerca de 47%, mas ainda distante da meta da OMS

O leite materno é insubstituível. Ele é a primeira vacina que o bebê recebe, visto que a mãe passa, por meio da amamentação, parte das defesas que ela construiu ao longo da vida. O leite materno fornece nutrientes, anticorpos, hidratação e se adapta às necessidades do bebê. Sabia que quando o bebê está adoecido, o leite materno se modifica para fortalecer a sua saúde? Isso nenhuma fórmula consegue reproduzir. Por isso, Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério da Saúde recomendam que o aleitamento exclusivo até os 6 meses (somente leite materno, sem adição de água, chás ou outros líquidos) e de forma complementar (com a introdução de outros alimentos) até 2 anos ou mais. 

Foto: FreepikAleitamento artificial
Aleitamento artificial

No Brasil, apenas 38,6% dos bebês são amamentados exclusivamente até os 6 meses, segundo a pesquisa ENANI/UNICEF. No mundo, essa média é um pouco maior, cerca de 47%, mas ainda distante da meta da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nos Estados Unidos, embora 83% dos recém-nascidos recebam leite materno ao nascer, aos 6 meses apenas 24,9% continuam em aleitamento exclusivo. Em contrapartida, o uso de fórmula é muito comum: globalmente, cerca de 66% dos bebês recebem fórmula em algum momento, chegando a 74% em países de alta renda. Esses números mostram que, apesar dos benefícios comprovados do leite materno, a introdução precoce de fórmulas ainda é uma prática frequente, muitas vezes sem necessidade.

Mesmo com todos os benefícios do leite materno, por que ainda vemos tantas prescrições de fórmula — muitas vezes sem necessidade e sem dar à mãe a chance de tentar amamentar? O que explica essa prática?

Riscos do uso indiscriminado (sem necessidade)

Fórmula infantil tem o seu lugar correto na assistência em saúde. Ela foi criada para ser utilizada quando o leite materno não está disponível ou não é indicado.

O problema não é a fórmula em si, mas o uso sem critério. 

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostrou que 70% dos pediatras recebem patrocínios de fórmulas infantis, como passagens aéreas, hospedagens, refeições e brindes estão entre os auxílios concedidos por empresas. Essa prática é ilegal no país. 

Estudos mostram que muitas fórmulas são prescritas para bebês saudáveis, prática que desestimula a amamentação e aumenta riscos. Um erro frequente é indicar volumes muito acima do necessário: no primeiro dia, o estômago do bebê comporta apenas 7 a 9 ml, mas há prescrições de 30 ml. Esse excesso provoca sobrecarga gástrica, refluxos e dificuldade de pega, já que o bebê é alimentado com mamadeira e não tem a chance de tentar mamar no seio materno. Tudo isso compromete a lactação.

Além disso, estes são alguns riscos à saúde pelo uso indiscriminado de fórmulas:

Infecções: Fórmulas em pó não são estéreis, por isso, o preparo inadequado pode levar a contaminação por Cronobacter sakazakii e Salmonella.  Quando a fórmula é indicada, é preciso seguir protocolos rigorosos de preparo seguro (água na temperatura correta, higienização dos materiais e armazenamento adequados). A segurança depende mais do preparo do que do preço pago na fórmula.

Microbioma e imunidade: Bebês alimentados com fórmula têm menor diversidade de flora intestinal, o que impacta a imunidade.

Doenças crônicas: O uso indiscriminado de fórmula está associado a maior risco de alergias, problemas imunológicos, obesidade e até diabetes. Muitas fórmulas infantis têm açúcar adicionado no lugar da lactose natural, o que pode prejudicar a saúde dos bebês. Um estudo da Universidade do Kansas mostrou que eles podem ingerir até 60 g de açúcar por dia, cerca de quatro colheres de sopa. Esse excesso aumenta o risco de obesidade, alterações no metabolismo, diabetes tipo 2 e problemas cardíacos. O açúcar adicionado pode fazer o bebê gostar mais de comidas doces, aumentando o risco de obesidade no futuro. Além disso, não alimenta as bactérias boas do intestino.

Internações hospitalares: Bebês que não recebem leite materno adoecem mais, exigindo consultas médicas, medicamentos e internações hospitalares. Estudos indicam que essas internações podem gerar custos elevados com antibióticos, exames e diárias hospitalares. Estas despesas que poderiam ser reduzidas com o estímulo à amamentação exclusiva.

Foto: Agência O GloboAleitamento artificial
Aleitamento artificial

E o custo com o aleitamento artificial (fórmulas)?

Além dos riscos, há o impacto no orçamento familiar. Alimentar um bebê com fórmula por seis meses pode custar de R$1.320,00 até R$ 4.320,00. Veja a comparação:

Foto: ReproduçãoCusto com o aleitamento artificial
Custo com o aleitamento artificial

- Observação 1: Todas as fórmulas devem seguir normas sanitárias, mas a qualidade nutricional e os aditivos variam conforme faixa de preço. A segurança depende mais do preparo correto do que do custo. No entanto, NENHUMA delas substitui os benefícios do leite materno.

- Observação 2: Não foram computados aqui os gastos com os utensílios necessários para o aleitamento artificial: frascos, bicos artificiais, gás de cozinha, água etc.

- Observação 3: Não foram computados aqui os impactos para o meio ambiente: produção e o consumo das fórmulas exigem extração de recursos naturais, uso de plástico nas embalagens, transporte e preparo, gerando resíduos e poluição.

Foto: CNN BrasilAleitamento artificial
Aleitamento artificial

Conclusão

A fórmula infantil não é vilã: ela é um recurso clínico essencial quando o leite humano não está disponível ou é contraindicado. O problema está no uso desnecessário, que pode trazer riscos evitáveis e custos elevados. Além disso, o marketing abusivo da indústria e até patrocínios recebidos por alguns profissionais para prescrever fórmulas influenciam famílias a substituir o leite materno sem necessidade, contrariando recomendações da OMS e do Ministério da Saúde.

Para proteger a amamentação, existem normas como o Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno e, no Brasil, a NBCAL (Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância), que restringem propaganda e práticas comerciais predatórias.

É fundamental que o aleitamento materno seja sempre estimulado como primeira opção, pois nada é melhor para a criança, com raras exceções. Define-se aleitamento artificial como todo método utilizado para fornecer leite ao bebê que não seja pelo peito. Esse tipo de alimentação só deve ser adotado quando houver total impossibilidade do aleitamento natural, em casos de indicação estrita e nunca de forma aleatória. Os riscos vão desde má formação da cavidade oral até danos permanentes à saúde, incluindo maior chance de obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares.

Quando a fórmula é realmente necessária, deve ser usada com prescrição correta, volumes adequados e preparo seguro, sempre mantendo o bebê em posição vertical para evitar refluxos e broncoaspiração.

Foto: Ministério da SaúdeAmamentação segura
Amamentação segura

“A fórmula tem seu lugar, mas não pode ser a primeira opção. Cada vez que ela é prescrita sem necessidade, estamos tirando da mãe a chance de oferecer ao bebê o melhor alimento que existe: o leite materno.” (Graziela de Melo Mantovaneli – Enfermeira Pediátrica e Neonatologista)

Foto: ReproduçãoGraziela de Melo Mantovaneli
Graziela de Melo Mantovaneli

Por Graziela de Melo Mantovaneli, enfermeira pediátrica e neonatologista e tutora em Aleitamento Materno e Alimentação Complementar pelo Ministério da Saúde.

Fonte: JTNEWS

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