Silvio Barbosa

Professor concursado do Curso de Comunicação Social da UFPI, campus Teresina. Doutor em Comunicação e Mestre em Filosofia do Direito é advogado e jornalista, com 24 anos de experiência de mercado, tendo trabalhado em empresas como Rede CBS (Estados Unidos), Globo, Bandeirantes, Record e TV Cultura. Autor dos livros TV e Cidadania (2010) e Imprensa e Censura (no prelo) e dos documentários Vale do rio de lama - no rastro da destruição, e Sergio Vieira de Mello, um brasileiro em busca da paz no mundo.
Professor concursado do Curso de Comunicação Social da UFPI, campus Teresina. Doutor em Comunicação e Mestre em Filosofia do Direito é advogado e jornalista, com 24 anos de experiência de mercado, tendo trabalhado em empresas como Rede CBS (Estados Unidos), Globo, Bandeirantes, Record e TV Cultura. Autor dos livros TV e Cidadania (2010) e Imprensa e Censura (no prelo) e dos documentários Vale do rio de lama - no rastro da destruição, e Sergio Vieira de Mello, um brasileiro em busca da paz no mundo.

Não aos radicais! Não à depredação do patrimônio público!

A estátua do bandeirante Borba Gato precisa continuar onde está

              Uma estátua esteticamente feia, erguida há pouco mais de 60 anos, é a marca do bairro de Santo Amaro, na Zona Sul da capital paulista, um bairro antigo, do início da colonização portuguesa, que foi cidade até ser incorporado de vez à metrópole.

                No sábado, 24 de julho, a estátua feia ganhou o noticiário nacional ao ser atacada por radicais do grupo Revolução Periférica. Eles colocaram pneus ao redor da estátua e puseram fogo, alegando que a estátua homenageia um homem que matou e escravizou indígenas durante as bandeiras que partiram de São Paulo em busca do ouro e dos diamantes das Minas Gerais nos séculos 17 e 18.

Foto: Folha de São PauloGrupo tenta destruir com fogo estátua de Borba Gato, em São Paulo
Grupo tenta destruir estátua de Borba Gato, em São Paulo

                Os bandeirantes são onipresentes na memória paulistana. Antes admirados, deram nomes a rodovias e monumentos, como o das Bandeiras, no Parque do Ibirapuera, esculpido pelo renomado Victor Brecheret. Antes eram vistos como os principais responsáveis pela expansão da fronteira brasileira, incorporando o Paraná, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, indo sertão adentro. Mas hoje, a história conta também que, para fazer isso, dizimaram e escravizaram povos indígenas que apareciam pelo caminho. Os heróis viraram maus.

                Com base nessa visão, radicais acham que é preciso destruir as lembranças dos bandeirantes. Acabar com as homenagens... esquecer o que fizeram. Destruir o passado e suas lembranças... É um radicalismo ideológico que volta e meia assombra a humanidade.

                Em 2001, por exemplo, os radicais islâmicos do Talibã, que governava o Afeganistão, dinamitaram as duas mais altas estátuas de Buda do mundo, esculpidas na montanha há mais de mil anos. O Talibã não suportava a ideia de que aquela região ao norte do Afeganistão um dia foi um reino budista que venerava imagens, algo proibido pelo Alcorão. O mundo ficou chocado com o ato de barbárie inspirado na fé.

              Mas esse horror voltou a se repetir na região, desta vez no Iraque dominado pelo radicais islâmicos do grupo ISIS. Eles invadiram o museu arqueológico de Mossul, situada na região do antigo Império Assírio, e destruíram tudo a marteladas. A relação de tesouros arqueológicos destruídos para sempre inclui cidades inteiras e pode ser vista nesse artigo: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2016/01/13-locais-historicos-destruidos-pelo-estado-islamico.html

              As esculturas que sobraram da antiga Nínive, capital assíria, são as que foram levadas nos séculos 19 e 20 para os museus da Europa. O Museu Britânico e o Louvre, entre outros, se tornaram, assim, os protetores desse passado da humanidade.

                O ódio ao que o passado representa não pode ser, diante desse exemplos horríveis, justificativa para sua aniquilação cultural.

                O Coliseu, de Roma, onde tantos cristãos foram martirizados, não deve ser demolido. A Casa Grande, onde vivia o senhor de escravos, não deve ser incendiada. O campo de concentração nazista de Auschwitz, na Polônia, não deve ser apagado do mapa. As marcas do passado da humanidade, dolorosas ou não, devem ser preservadas.

                A destruição de qualquer estátua dos Bandeirantes não vai alterar o passado. Mas a permanência dela ali, sim, servirá de referência para sempre daquele momento histórico - genocídio indígena, escravização - por ela representado. O termo é ressignificar, ou seja, dar novo – ou mais completo – entendimento à obra, ao monumento, ao próprio passado.

                Borba Gato deve, portanto, ficar onde está. E o povo deve aprender quem foi e o que fez aquele personagem histórico.

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