Maria das Graças Targino

Doutora em Ciência da Informação, Universidade de Brasília, e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca, Espanha. Sua experiência acadêmica inclui, ainda, cursos em países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Tem produzido artigos, capítulos e livros em ciência da informação e comunicação, enveredando pela literatura como cronista. Depois de vinculação com a Universidade Federal do Piauí por 25 anos e com a Universidade Federal da Paraíba por 14 anos, hoje, dedica-se à literatura, especificamente, ao jornalismo literário e a crônicas.
Doutora em Ciência da Informação, Universidade de Brasília, e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca, Espanha. Sua experiência acadêmica inclui, ainda, cursos em países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Tem produzido artigos, capítulos e livros em ciência da informação e comunicação, enveredando pela literatura como cronista. Depois de vinculação com a Universidade Federal do Piauí por 25 anos e com a Universidade Federal da Paraíba por 14 anos, hoje, dedica-se à literatura, especificamente, ao jornalismo literário e a crônicas.

Ética na política: onde estás?

Ética, moral e responsabilidade social são expressões utilizadas com frequência pela população em geral, ainda que, às vezes, sem muita clareza

Se, consensualmente, a ética não é universal, haja vista que obedece aos ditames culturais dos diferentes povos, individualmente, é preciso que cada um, incluindo a classe política, detentora do poder que lhe outorgamos, não classifique a autonomia ética sob a ótica do mal que se  contrapõe ao bem, o errado ao certo, o antiético ao ético...

Findas as eleições municipais, quase de imediato, em algumas cidades brasileiras, destaque para São Paulo capital, Niterói (RJ) e Mâncio Lima (AC), em meio à semana de Natal, época propícia para passarem despercebidas ações políticas vergonhosas como essas, em pleno contingenciamento de gastos devido à pandemia da COVID-19, mandatários reeleitos favorecem seu “próprio bolso” e o dos coleguinhas. Aprovam aumento salarial para os prefeitos (leia-se, eles próprios), seguidos dos respectivos vices e do secretariado. No caso de São Paulo, o aumento concedido chega a 46,68%; no Acre, a 20%; em Niterói, a 10%. A justificativa é sempre a defasagem salarial, chegando ao absurdo de compararem sua situação com os professores da educação infantil e do ensino fundamental.

Foto: Reprodução/SlideshareÉtica na política

Não cometeram delito. Não é caso de transgressão, infração ou contravenção contra os dispositivos legais. Aliás, aqui, no Piauí, lembra a recondução à cadeira de presidente da Assembleia Legislativa do Piauí pela nona vez consecutiva do deputado estadual Themístocles Filho, desta vez para 2021 a 2023, como se não fora a ALEPI um espaço público de representação e, sim, o quintal de uma propriedade privada. Legal, sim! Ético, não! Ou seja, não se trata de ilegalidade no sentido estrito do termo. Trata-se de ética, ou melhor, da falta dela. Esta palavrinha pequena é plena de significados.

Mais do que nunca, nos dias atuais, ética, moral e responsabilidade social são expressões utilizadas com frequência pela mídia e pela população em geral, ainda que, às vezes, sem muita clareza. Muitas são as concepções adotadas por aí afora. No entanto, chama atenção as conceituações simples e esclarecedoras do pesquisador Simon Beard, vinculado ao Centre for the Study of Existential Risk [Centro de Estudos de Risco Existencial], Cambridge University, Reino Unido, onde desenvolve o Projeto denominado Managing Extreme Technological Risks [Gerenciando Riscos Tecnológicos Extremos]. Em termos genéricos, o Projeto estuda as implicações éticas dos riscos tecnológicos no dia a dia de forma a contribuir para a convivência pacífica entre governos, nações e povos, ou seja, para um mundo melhor.

Sua pesquisa concentra-se na chamada filosofia moral consequencialista, cujo foco central está na “ética da população”, com o intuito de avaliar o apoio de cada um dos seres humanos para o resultado almejado – um mundo melhor. O consequencialismo situa-se no âmbito da filosofia moral e da ética, ao assegurar que o valor moral de um ato é determinado tão somente por seus efeitos. Não vale a pena se preocupar com ações e valores ultrapassados, uma vez que são eles irrecuperáveis. Vale a pena, sim, olhar para o futuro, a fim de maximizar medidas que tragam consequências benéficas para o outro, reduzindo consequências nefastas e/ou exemplos disformes.

Há crescente preocupação com princípios éticos e valores morais na vida privada e pública, incluindo as instituições governamentais e não governamentais. A sociedade exige solidificação de sua imagem positiva perante o público e, também, que elas sigam parâmetros éticos explícitos. Então, o que dizer dos políticos que aí estão como representantes do povo? No caso do aumento salarial, choca e cheira à traição o fato de o intuito não ter sido declarado ao longo das campanhas. No caso da ALEPI, uma pergunta que não quer calar: por que tanta alienação e rejeição à mudança por parte dos demais deputados? A voz indignada do povo do país do carnaval e do futebol não veio das ruas ou às ruas. Silêncio glacial, gélido e fantasmagórico. Vi, com surpresa, um povo que rejeitou a ideia de clamores coletivos, talvez, voltado às festas de fim de ano ou atordoado diante dos males do coronavírus. Não sei!

Todos nós exercitamos (ou deveríamos exercer) no dia a dia responsabilidades sociais, morais e éticas em meio ao grupo social no qual estamos inseridos. Desenvolvemos, a depender dos princípios e dos preceitos que assimilamos ao longo da vida em nossa formação integral, além da ética, a denominada autoética, quando de forma autônoma, avaliamos nosso comportamento, com base na prescrição altruísta de inclusão e de apelo de solidariedade em relação aos demais.

O respeito de uns perante os outros permeia a sociedade como exigência comportamental, ainda que, paradoxalmente, sempre haja dificuldades para alcançar o consenso em torno da ética. As opiniões se diversificam de forma quase infinita, por distinções culturais, sociais e individuais. Se, consensualmente, a ética não é universal, haja vista que obedece aos ditames culturais dos diferentes povos, individualmente, é preciso que, cada um, incluindo a classe política detentora do poder que lhe outorgamos, não classifique a autonomia ética sob a ótica do mal que se  contrapõe ao bem, o errado ao certo, o antiético ao ético e assim por diante. Talvez, por isso, seja útil rever os conceitos de Simon Beard. Para ele, a moral é essencialmente individual, com carga intuitiva e emocional. A ética, por sua vez, reúne prescrições formalizadas que se propõem a representar a “verdade” sobre como as pessoas deveriam se portar frente ao outro.

Para tanto, é essencial exercitar a ética de si para si, o que comporta autoanálise, autocrítica, honra, tolerância, prática da recursão ética e tomada de responsabilidade. Não se discute a legalidade. Discutem-se, aqui, os elementos conjugados que favorecem os valores que a ética iniciada no âmago do indivíduo, dele para consigo, se aprimore e atinja a ética para com outrem, para o povo, para aquela multidão que, por um momento, acreditou em mudanças decantadas aos quatro ventos a favor dos desfavorecidos! Palavras vãs e vazias de significado! Afinal, será que não somos capazes de delinear quais ações são legais, apesar de moralmente condenáveis? Se sim, ótimo. Se não, pobres filhos ou pobres jovens que observam e assimilam comportamentos revestidos / travestidos de probidade e de acerto!

Fonte:

BEARD, Simon. Ética profunda: o longo caminho para distinguir o certo do errado. JTNEWS, Teresina, 3 jan. 2021. 09h21.

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