Maria das Graças Targino

Doutora em Ciência da Informação, Universidade de Brasília, e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca, Espanha. Sua experiência acadêmica inclui, ainda, cursos em países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Tem produzido artigos, capítulos e livros em ciência da informação e comunicação, enveredando pela literatura como cronista. Depois de vinculação com a Universidade Federal do Piauí por 25 anos, hoje, é docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba.
Doutora em Ciência da Informação, Universidade de Brasília, e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca, Espanha. Sua experiência acadêmica inclui, ainda, cursos em países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Tem produzido artigos, capítulos e livros em ciência da informação e comunicação, enveredando pela literatura como cronista. Depois de vinculação com a Universidade Federal do Piauí por 25 anos, hoje, é docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba.

Carta aberta aos gestores locais do Piauí

A pandemia tem instaurado verdadeiro caos em diferentes nações, incluindo o Brasil, sobretudo, desde os dois primeiros meses de 2020

Nenhuma organização de caráter mundial por mais renomada que seja, a exemplo da Organização Mundial da Saúde, nenhuma nação, nenhum sistema de saúde, nada, nem ninguém estava preparado para o rastro de horror causado pela COVID-19. Embora já surjam controvérsias, o vírus foi detectado no dia 1 de dezembro de 2019, na cidade da China, Wuhan. Ao se expandir com velocidade incrível mundo afora, a pandemia instaurou verdadeiro caos em diferentes nações, incluindo o Brasil, sobretudo, desde os dois primeiros meses de 2020.

Foto: 4x-image/istockAmostra laboratorial do novo coronavírus, identificado antes na China
Amostra laboratorial do novo coronavírus, identificado antes na China

Em toda parte, dentre os gestores, quase sempre, encontro e desencontro de “fórmulas” de como agir e do que fazer; brigas às claras ou às ocultas; acusações veladas ou midiáticas sobre os protocolos em estudo ou adotados. Muitas discussões acerca da necessidade de fechar as cidades, radicalmente ou não, seguidas de reinvindicações a favor da volta urgente ao trabalho.

Confesso que, a princípio, vi no fechamento, incluindo o lockdown, o recurso único para os gestores. Como cidadã disposta a colaborar, em especial, com o Piauí e a capital Teresina, entrei em quarentena no dia 14 de março, seguindo o lema “Fique em casa.”. Pensava assim: ninguém trará de volta avós, pais, irmãos, amigos, vizinhos, companheiros, enfim, todos aqueles que o Coronavírus levou consigo em suas asas invisíveis de abutre poderoso, impiedoso e sem escrúpulos. O bloqueio econômico, com a paralisação de empresas e indústrias, fábricas e fabriquetas, grandes e pequenos comércios, encontraria adiante, com ajuda de dinheiro público (nosso) uma forma de ressuscitar, ainda que dolorosa!

Passaram-se dias e meses. Como até os números mais simples acerca da pandemia, nacionais, regionais, estaduais e locais são desencontrados e disformes (propositadamente ou não), lá se vão cerca de três longos meses e 15 dias ou ainda mais. A pandemia prossegue. Não há perspectiva. Paira inexplicável desencontro de informações. Não estamos nos referindo a fake news. Aludimos à discrepância entre os dados emanados do Governo do Estado e da Prefeitura Municipal (PM) de Teresina. De início, os titulares pareciam trabalhar em uníssono. Não tardou muito e, ao que parece, adotaram o modelo funesto da guerra ruidosa que toma fôlego em Brasília, com intriga nos bastidores e em alguns municípios.

No caso do Piauí, ênfase para Teresina, pasmem! As diversidades iniciam a partir do que é “serviço essencial.” Cada governante dita sua concepção, o que põe em pavorosa a coletividade que nem sabe o que é serviço básico e/ou quais são os setores liberados. É um descompasso só. O cronograma – para os gestores que esqueceram, significa a previsão de um trabalho com a indicação dos prazos de execução das diversas fases – é bastante simples: INEXISTE. Tudo seria hilário se não fora nefasto à população. Há desinformação até acerca da transferência dos feriados! Atingem os transportes públicos! Alcança o ensino em todos os níveis.

A Secretaria de Estado da Educação – Piauí e a Secretaria Municipal, com frequência, adotam as expressões ensino a distância/educação a distância (EAD) como sinônimos de ensino remoto. Tentam vender à coletividade a ideia de que os semestres letivos vão muito bem, obrigado! Ambas as modalidades de ensino utilizam as tecnologias de informação e de comunicação como ferramentas básicas, mas de modo distinto, e demandam, sempre, corpo docente capacitado em termos de alfabetização/letramento digital e, sobretudo, alunos com acesso às tecnologias. O improviso da EAD ou do ensino remoto para cumprir a carga-horária prevista, sobretudo, na esfera da educação infantil, do ensino fundamental e médio, da educação para jovens e adultos e da educação especial, em se tratando da realidade piauiense, tem sido, tanto na esfera pública quanto privada, mero engodo e mentira descarada.

A assistência ao serviço médico da PM via telefone é louvável. Quando você parte para um hospital (e não falo do sofrido SUS) em busca do teste da COVID-19, você esbarra num burocracia burra: viva a redundância! Médicos muito gentis, sim. Quando da requisição para solicitar o teste IGM e IGG, um porém: só via internet, incluindo o scanner dos vários documentos: quantos brasileiros estão excluídos desta benesse? Vocês sabem? E há mais, porque não crível: na sala de espera, onde só há pessoas com suspeição do vírus, as cadeiras estão dispostas coladas uma a outra e a higienização é invisível. Todos se entreolham. Poucos se sentam. Os gestores que mandam prender comerciantes que abrem furtivamente as portas de seu simples estabelecimento, não fiscalizam um hospital dito de ponta em plena capital.

Não podemos mais matar nem pessoas nem empresas. Com o dinheiro destinado à pandemia e surrupiado de Norte a Sul do país, o Governo Federal poderia ter adotado a solução inteligente empregada em países, que domaram a COVID-19 em tempo recorde: testagem massiva da população para assegurar a flexibilidade cronometrada, leia-se, planejada. Basta de assessores falarem, com voz empostada e robótica: “protocolos estão sendo preparados!”

Até quando, senhores gestores do PI? Por favor, voltem a adotar um discurso único para minimizar a indefinição e a instabilidade de nossa gente na Teresina-fantasma de hoje! Se a vocês e às suas famílias nada falta, incluindo profissionais de beleza, auxiliares do serviço de casa, transporte oficial e mil outras facilidades, se travistam, por um dia que seja, de diarista, de operário, de pedreiro etc. Um dia só! Só um dia, por favor! Tributo simples aos 421 piauienses que partiram!

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