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Vida que Segue: de forma simples, direta e necessária ensina como enfrentar o fenômeno do suicídio

"A ideia de fundar o 'Vida que Segue', nasceu a partir da morte de minha filha. Foi aí que percebi o quanto a informação aprofundada poderia ter ajudado a salvá-la", diz Leidinalva Siqueira

Foto: Malu Costa/JTNews
A estudante de Psicologia, Adriele Leite e a pedagoga e fundadora do Vida que Segue, Leidinalva Siqueira

O mês de setembro chega ao fim e mesmo com a ida dele, as campanhas de prevenção e posvenção ao suicídio ficam [posvenção é a ajuda para quem fica]. São ações, atividades, intervenções, suporte e assistência para aqueles impactados por um suicídio completo, ou seja, os sobreviventes. É uma ferramenta reconhecida mundialmente como um componente importante no cuidado da saúde mental dessas pessoas.

Sobreviventes são todas as pessoas afetadas por um suicídio: pais, filhos, irmãos, familiares, amigos, colegas. Além disso, pessoas que perderam alguém significativo por suicídio e aquelas que tiveram a vida afetada ou mudada por causa dessa morte, são consideradas sobreviventes.

Foto: Malu Costa/JTNews
A estudante de Psicologia, Adriele Leite e a pedagoga e fundadora do 'Vida que Segue', Leidinalva Siqueira

O Grupo Vida que Segue é feito por pais enlutados, em que todos perderam os filhos para o suicídio na faixa etária entre os 16 e os 24 anos, na faixa de adolescente e jovens adultos. Eles trabalham com a prevenção, mas principalmente a posvenção ao suicídio. Entrevistamos a fundadora do Grupo, professora e pedagoga, Leidinalva Siqueira, e a estudante de Psicologia Adriele Leite, que acompanha o grupo desde a sua fundação.

JTNews: Como foi fundar o grupo? 

Leidinalva Siqueira: A ideia de fundar o Vida que Segue nasceu a partir da morte minha filha. Foi aí que eu percebi o quanto a falta de informação, a busca dessa informação de forma mais aprofundada, menos superficial, poderia ter ajudado. Ela apresentou alguns sinais e eu não percebi. Então estou nessa luta para levar a nossa mensagem aos pais para que eles fiquem atentos, para que a sociedade de modo geral amplie o olhar sobre seus filhos, sobre os amigos, sobre as reações deles. A partir da mostra à minha filha que percebi que tinha um conhecimento superficial. Eu achava que poderia acontecer na casa de todo mundo, menos na minha, e quando aconteceu me vi diante de um fenômeno tão complexo, tão destruidor que eu achei que poucas pessoas sobrevivessem a isso. Então, as pessoas precisam estar atentas, até pra se protegerem, para prevenir, para que esse mal não aconteça em seus lares. 

JTNews: Com o Grupo, vocês conseguiram a municipalização da Lei Jordana. O que é essa lei e o que ela significa nesse contexto? 

Leidinalva Siqueira: A Lei Jordana foi aprovada em 2018 e esse ano foi o primeiro ano desta ei. Ela diz que o poder público municipal deve, na data 17 de maio [que é a data de morte da minha filha], se manifestar, promovendo rodas de conversas, debates, palestras, para trazer a informação precisa no combate desse mal. 

Então a lei vem nesse sentido. É também uma lei de pós missão, que traz esclarecimentos para pessoas de quem perdeu seus filhos, um parente ou um amigo, é considerado um sobrevivente e existem cuidados específicos para esse público. Esses cuidados são chamados de posvenção ao enlutado. Se não houver esse cuidado com o meio que perdeu alguém, no futuro pode ter um outro suicídio por que o luto é muito difícil. 

Foto: Malu Costa/JTNews
Integrantes do Grupo Vida que Segue durante ação em Teresina

JTNews: Qual a maior dificuldade em atrair pais? 

Leidinalva Siqueira: Eu acho que isso tem mais de uma, são muitas dificuldades. Uma delas foi falar. Me lembro que essa junção dos pais se deu muito por conta dos colóquios municipais que organizei junto com outras parcerias, como a OAB, o Conselho Regional de Psicologia. Carlos Henrique Aragão que é especialista e estudioso da causa e deu suporte na época a minha filha [é uma referência nessa área e para nós especialmente]. Assim conseguimos reunir esse povo, que também estava no mesmo sofrimento, na mesma luta, mas, também é difícil a gente chegar às pessoas que perdem. Isso por que o foco do nosso trabalho é voltado para posvenção, especificamente aos pais, que é um público muito subjetivo, muito específico, que tem uma dor muito singular. Então queríamos voltar o nosso trabalho para esse público, mas é muito difícil, quando sabemos da perda, nos aproximamos, mas a abordagem e a aceitação são difíceis. Nem todo mundo está aberto. Ainda temos que enfrentar o tabu, preconceito, estigma social e exposição. Acontece que algumas pessoas preferem se isolar achando que o suicídio é apenas uma questão muito particular, da família, um caso que não cuidou, quando na verdade o suicídio é uma questão de saúde pública. 

JTNews: Como estudante de Psicologia [Adriele], qual a importância de um grupo de apoio para esses pais? Como isso os ajuda? 

Adriele Leite: Primeiramente é uma questão da validação do sentimento da perda. Não é todo mundo, principalmente quando a causa da morte da pessoa é o suicídio, ela vai validar aquela dor. É importante no processo de luto a identificação, você saber que alguém tá sofrendo de uma dor, não igual, mas similar a dor que você tá sentindo. Ter um ambiente, eu vejo de forma similar ao AA [Alcoólicos Anônimos] e ao NA [Narcóticos Anônimos], onde você vai falar do seu sofrimento e as pessoas ali, elas vão entender o que você tá passando e às vezes, por exemplo, você tá sentindo algo que você não precisa nem dizer, outra pessoa diz e você se identifica por que o sofrimento dela é similar ao seu. 

Foto: Malu Costa/JTNews
O Grupo Vida que Segue promoveu ações importantes durante o mês de setembro

JTNews: No mês do Setembro Amarelo é comum ver diversas campanhas sobre prevenir o suicídio. No caso do Vida que Segue é um grupo de posvenção. Qual é a importância do cuidado com quem fica? Principalmente no Piauí que casos de suicídio são recorrentes?  

Adriele Leite: Bom, na minha opinião, vejo que a posvenção acaba sendo uma maneira de prevenção porque se você for observar, cuidar do luto e da dor dessas famílias e amigos uma forma de prevenção porque eles vão estar em sofrimento, o que pode chegar também a um suicídio. Um cuidado também importante é das pessoas que presenciam e que não obrigatoriamente conhecem aquele sujeito. Se alguém presencia e não passa por cuidado, ninguém que impede que ela desenvolva o sofrimento psicológico e o adoecimento psicológico depois de presenciar. 

Vale lembrar que a campanha de prevenção ao suicídio é algo que deve acontecer ao longo do ano, não se resumindo ao mês de setembro. O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone pelo disque 188, email e chat 24 horas todos os dias.

Fonte: JTNews

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