Política

Especialistas apontam incompetência como causa de militarização do governo Bolsonaro

Com a nomeação do general Braga Netto, quatro militares agora ocupam cargo de ministro no Planalto.

Foto: Adriano Machado
Presidente Jair Bolsonaro em Brasília

Com a nomeação oficial do general Braga Netto no lugar de Onyx Lorenzoni na Casa Civil, quatro militares agora ocupam gabinetes no Planalto, com status de ministros: Braga Netto (Casa Civil); o general Luiz Eduardo Ramos (secretaria de Governo); o general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e o policial militar da reserva Jorge Oliveira (Secretaria Geral da Presidência).

Foto: Adriano Machado
Presidente Jair Bolsonaro em Brasília

Cientistas políticos ouvidos pelo UOL apontam incompetência, inexperiência, desarticulação com lideranças civis e quadros inexpressivos do PSL (partido pelo qual o presidente Jair Bolsonaro se elegeu) como algumas das razões que fazem com que todos os ministérios vinculados à Presidência da República sejam ocupados atualmente por militares.

Inexperiência

"O presidente se diz sobrecarregado e que por isso tem procurado pessoas para dividir atribuições. Isso é muito mais um sinal de sua incompetência para o cargo e inexperiência em gestão", afirma o cientista político Rui Tavares Maluf, professor da Fesp-SP (Fundação Escola de Sociologia Política de São Paulo).

"A presença militar cada vez maior demonstra que Bolsonaro não tem penetração nenhuma entre as lideranças civis. Buscar compor com militares tem muito a ver com a preservação no cargo", afirma a cientista política Vera Chaia, professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica).

Militares de projeção

Para Chaia, por ser uma "liderança fraca e sem expressão, Bolsonaro busca cercar-se de militares de projeção".

Maluf pondera que Braga Netto, ex-interventor da Segurança Pública no Governo do Rio e que ocupava nos últimos meses o Estado-Maior do Exército, representa uma escolha sóbria de um militar cuidadoso no relacionamento com os civis.

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
Jair Bolsonaro participa do desfile de 7 de setembro, na Esplanada dos Ministérios.

"Uma pessoa que demonstrou respeito àqueles que se opõem aos militares ocupando um espaço muito grande, mas só a dinâmica dos acontecimentos mostrará se isso trará um melhor relacionamento com o Congresso e com os outros ministros", avalia.

"Bolsonaro vai se cercando de lideranças que ele não pode demitir, como o porta-voz, general Rêgo Barros, cada vez mais sem função", afirma a professora.

Além disso, o fato de Onyx Lorenzoni (DEM) não ter apresentado os resultados que o governo esperava dele, e seu rápido desgaste após a demissão do secretário-executivo da Casa Civil, Vicente Santini, também contribuíram para o crescimento da presença militar no governo.

Outro motivo que fez crescer a presença militar no governo federal é o fato de que as lideranças do PSL eleitas na esteira do fenômeno Bolsonaro "são inexpressivas nacionalmente e sem conhecimento técnico. Quem era Bivar?", afirma Vera Chaia.

Democracia em perigo?

Os dois professores, contudo, divergem ao analisar o impacto da presença militar no governo para a democracia.

Maluf, a princípio, acredita que a excessiva presença militar "não significará ruptura da ordem democrática" e que o espaço crescentemente ocupado por militares das três forças no governo é mais uma resposta ao chamado do que uma busca crescente por poder.

"Mais recentemente, as Forças Armadas têm procurado demonstrar um comportamento de respeito à Constituição Federal, apesar de um ou outro discurso mais inflamado", afirma o professor.

Para Vera Chaia, a presença militar dá um sinal ruim para a sociedade. "Estamos vendo eles voltando ao poder [após a ditadura] com uma tranquilidade enorme, sem resistência. É muito triste depois de tanta luta pela volta da democracia ver militares ocupando vários espaços no governo e na sociedade", diz.

Vera relembra que em grandes crises internacionais, como as queimadas na Amazônia, o surto do novo coronavírus na China e no episódio do óleo das praias, Exército, Aeronáutica e Marinha, respectivamente, foram chamados. "Eles ganham espaço justamente pela fraqueza de Bolsonaro", conclui.

Fonte: UOL Notícias

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